Uma saudável dose de realismo

Como as crenças negativas em si mesmo afetam a capacidade de um líder? Nicole Lipkin, uma psicóloga organizacional americana, nos dá algumas dicas em um post para o Thrive Global. "Quando nos bombardeamos com pensamentos negativos, nossa ansiedade torna-se contagiosa para todos ao nosso redor", explica ela. "Você pode ter um MBA em Wharton e um diploma de direito de Harvard, mas, se for um caso típico de estresse, seus colegas nem vão notar suas credenciais; eles só vão reparar no seu comportamento estressado."

A neurociência sustenta a noção de que as pessoas acham difícil trabalhar para líderes que não lidam com o estresse de forma eficaz. O contrário também é verdadeiro. "O gerenciamento eficaz do estresse faz com que você e todos ao seu redor sejam mais eficientes e produtivos", escreve Nicole. A questão, então, é como acabar com a conversa mole negativa dentro das nossas cabeças. "Nós não temos que nos tornar Polianas para mudar nossa auto-fala ['self-talk']. Simplesmente mantendo uma saudável dose de realismo, podemos melhorar nossa saúde psicológica e, em última análise, nossas habilidades", pondera Nicole. "É um otimismo aprendido." Ela sugere cinco linhas de ação para tanto. Destaco três delas:

1. Arrume um coach ou terapeuta. Esse tipo de profissional pode ajudar a romper o "looping" de pensamentos negativos em nossas cabeças. "É um sinal de força admitir que você precisa de ajuda e aceitar uma perspectiva externa."

2. Comprometa-se com sua vida. "Ponha-se em forma física, social e profissionalmente", recomenda Nicole. "Quanto mais você estiver realizando o que vê como seu eu inato, menos tempo terá para ouvir a sua auto-conversa negativa."

3. Perceba quem tem controle sobre as situações. "Você pode escolher como reage a um estressor e assim exercer algum controle sobre ele. Isso requer prática, mas você tem que começar", escreve Nicole. "Você precisa criar novos caminhos neurais em seu cérebro, o que requer repetidas tentativas."

 

 

A Economist e o direito de ser infeliz no trabalho

"As empresas estariam muito melhor se esquecessem objetivos insossos como incentivar a felicidade." Provocação das boas feita pela Economist. Está na sempre bacana coluna Schumpeter na edição que saiu nesta quinta-feira, com o título "Contra a Felicidade" e o subtítulo "Empresas que tentam transformar a felicidade numa ferramenta de gestão estão indo longe demais."

O texto é delicioso, como de costume. "A meliante líder é a Zappos, uma loja de sapatos online", acusa a revista. "A Zappos está tão feliz com o seu trabalho sobre a alegria que criou uma consultoria chamada Delivering Happiness [que também é o título do CEO da empresa, Tony Hsieh]." Segundo a Economist, uma "variedade estranha" de gurus e de consultorias está promovendo o culto da felicidade - afinal, "os executivos sabem há muito tempo que há dinheiro a ser feito nesse campo."

 O artigo acrescenta, no mesmo tom divertidamente rabugento, que algumas empresas estão tentando criar algum bem-estar no ambiente de trabalho mimando seus funcionários com cursos de mindfulness, aulas de ioga e "qualquer outra coisa que prove que os gerentes estão interessados 'na pessoa como um todo'". A certa altura, você se pergunta: e qual é o problema?

Uma crítica da Economist é que esse investimento empresarial não é desinteressado. Afinal, o Gallup afirmou em 2013 que a infelicidade de funcionários custa à economia americana US$ 500 milhões por ano em perdas de produtividade. Pior, nota a coluna: na verdade, o problema com a ideia de monitorar a felicidade é que ela é uma métrica vaga. É difícil confirmar ou refutar os números do Gallup, já que não é totalmente claro o que está sendo medido. "Mas há alguma coisa de muito errada com isso?", pergunta a própria coluna?

Aparentemente sim. "Vários estudos acadêmicos sugerem que o 'trabalho emocional' pode trazer custos significativos". Como assim?? Segundo tais pesquisas - supostamente mais confiáveis que a do Gallup... -, quem é obrigado a fingir que está feliz no trabalho corre mais riscos de estresse e burnout. "Mas o maior problema com o culto da felicidade é que é uma invasão inaceitável da liberdade individual"", sustenta a revista, citando casos bizarros de companhais que realmente exigem que seus funcionários exalem felicidade, sobretudo no contato com clientes. "As empresas têm o direito de pedir aos seus empregados para serem educados quando lidam com o público", conclui a coluna. "Elas não têm o direito de tentar regular os estados psicológicos dos seus funcionários, transformando a felicidade em um instrumento de controle corporativo."

Discussão boa para mesa de bar - de preferência ao som de "Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro", na voz do punk romântico Wander Wildner. 

 

 

De cada cinco CEOs, um pode ser psicopata

Um em cada cinco CEOs é psicopata. É o que diz um estudo recente revelado pelo jornal britânico Independent. A proporção é semelhante à tipicamente verificada entre presidiários - pelo menos na Austrália, onde a pesquisa foi conduzida. As características-chave desses executivos incluem incapacidade de sentir empatia, superficialidade e falta de sinceridade.

O estudo, realizado pelo psicólogo forense Nathan Brooks, da Bond University, detectou traços psicopáticos "clinicamente significativos" em 21% dos 261 profissionais analisados . Brooks disse ao Independent que esses resultados sugerem que as empresas devem analisar seus funcionários segundo características de personalidade, em vez de focar só em suas habilidades.

De acordo com Brooks, um tipo de psicopata bem sucedido, que pode ser inclinado a práticas ilegais ou antiéticas, tem sido admitido em números anormais nos altos escalões das empresas devido à forma como elas contratam. Para se ter uma ideia da anomalia encontrada no topo das organizações, basta observar que, na população em geral, aproximadamente 1% das pessoas são psicopatas, embora alguns estudos falem em 4% - muito longe, de qualquer maneira, dos 21% em questão.

Outro especialista ouvido pelo Independent, Scott Lilienfeld, da Emory College, dá uma dica do que pode estar acontecendo: "Ser um psicopata pode predispor uma pessoa ao sucesso de curto prazo. Eles tendem a ser charmosos e extravagantes, o que torna mais fácil ser bem sucedido no curto prazo, embora isso possa ser comprado à custa do fracasso a longo prazo".

Sobre globalização, robôs e o futuro do trabalho

Nossos sistemas parecem quebrados porque estão tentando encaixar coisas no modo como o mercado de trabalho funcionava no passado. Este talvez seja um bom resumo da entrevista de Jeffrey Joerres, ex-CEO do ManpowerGroup, à Harvard Biz Review de outubro. "Sobre globalização, robôs e o futuro do trabalho".

Alguns tópicos especialmente interessantes:

Tendências moldando a força de trabalho

"A óbvia - a que tem mais abalado o mercado - é a globalização", disse Joerres. "Ultimamente, temos visto o surgimento de análises de micro-mercados que revelam pools de habilidades geolocalizados." A localização de talentos, porém, não é constante. A esta altura, a maioria dos pools até recentemente inexplorados (ele cita Bratislava, na Eslováquia, como exemplo) já foram desenvolvidos. Muito poucos permanecem intocados.

Robôs e empregos

"Inteligência artificial e robótica estão afetando o mercado de trabalho, mas ainda não são amplamente utilizadas. Assim que você puder obter um robô por US$ 5.000, em vez de US$ 100.000, assim que puder obter IA com melhor reconhecimento de voz e assim que puder obter IA contextual que possa antecipar e responder perguntas sem intervenção humana, isso vai deixar os mercados de trabalho em polvorosa." Ou seja, não é exagero. Os robôs são, de fato, uma grande ameaça ao trabalho humano, como muita gente diz.

"A sabedoria convencional é que o aumento da produtividade ajuda os mercados de trabalho - cria desconexão temporária [entre as competências necessárias e as disponíveis no momento] enquanto os trabalhadores se esforçam para adquirir novas habilidades para lidar com os novos postos de trabalho, mas eles chegam lá de modo relativamente rápido", disse Joerres. "No contexto atual, não compro essa ideia."

Alguma dúvida sobre a obsolescência da mão de obra humana? The Economist, 17 de setembro de 2016:

Em 1990, as três maiores montadoras de Detroit tinham valor de mercado de US$ 36 bilhões e 1,2 milhão de funcionários. Em 2014, as três maiores firmas do Vale do Silício, com valor de mercado de US$ 1 trilhão, tinham só 137 mil empregados.

Que o hobby volte a ser... só um hobby

"Hobbies servem cada vez mais como fonte de renda alternativa - às vezes, até se tornam as principais. Mas aí perdem seu caráter original: serem uma atividade livre de obrigações." Interessante esta reflexão trazida pelo site Nexo, na reportagem "Por que você não precisa transformar seu hobby em fonte de renda", de Ana Freitas. "Há uma grande quantidade de histórias de jovens de classe média que mudaram de vida e transformaram algum hobby - como fotografia, escrever um blog ou cozinhar - em empreendedorismo nos últimos anos", nota ela. "É nesse contexto que muitos estão agora defendendo que o hobby volte a ser aquilo que ele se propunha originalmente, livre de pressões para transformá-lo num negócio."

Ana resgata parte da história dos hobbies, em especial a partir da Grande Depressão nos Estados Unidos dos anos 30. "Na medida em que as horas de trabalho diminuíam, ministros, educadores, oficiais do governo e outros guardiões da moralidade pública se preocupavam que [SIC] as horas livres seriam preenchidas com atividade inúteis ou perigosas (...) Hobbies e o discurso que os encorajava serviram para expandir a ética de trabalho em um período em que os empregos estavam em risco (...) preservavam e desenvolviam habilidades profissionais e valores relacionados ao trabalho fora do setor privado de empregos", escreveu Steven Gelber em "A Job You Can't Loose: Work and Hobbies in The Great Depression".

Oitenta anos depois, Ana entende que "o problema do hobby que se torna trabalho é que aí, por definição, ele deixa de ser hobby". A diferença fundamental entre os dois, na visão dela, está entre "aquilo que você faz por obrigação - o trabalho - e aquilo que faz em nome da realização pessoal, sem pressão ou obrigação".

Participei de outra reportagem sobre este tema - embora com abordagem um tanto diferente - em maio deste ano: "4 riscos que você corre ao transformar seu hobby em carreira". Claudia Gasparini, de Exame.com, chamou a atenção para o fato de muita gente alimentar o sonho de transformar a "atividade de fim de semana" em ofício. "Às vezes dá certo", observou ela. "No entanto, como em qualquer outro processo de mudança de carreira, não faltam armadilhas pelo caminho".