Um propósito mais modesto

Como encontrar um propósito? Esta é uma das questões mais difíceis para o ser-humano: como encontro sentido para minha vida? No fundo, essa busca por propósito é uma busca por significado para a existência. No mínimo, por um sentido para o trabalho, mas frequentemente a gente parte atrás de significado para o que faz profissionalmente e descobre que o buraco é mais embaixo. Que a gente, no fundo, está procurando sentido para a vida. Tem muita frase de para-choque de caminhão sobre isso: “acredite no seu sonho”, “siga seu coração”, “olhe pra dentro de você mesmo e então encontrará o seu verdadeiro propósito”. Não acredito nisso. A maior parte das pessoas passa a vida sem procurar propósito nenhum. Há uma minoria que passa a vida toda procurando – e, dentro dessa minoria, tem um grupinho minúsculo que encontra algum significado.

Feito este preâmbulo dá para dizer que, se tivermos sorte, o propósito pode ser encontrado na interseção de três percepções. A primeira é sobre as atividades que gostamos de fazer. Esta é a tal da motivação intrínseca. Atividades que fazemos porque sentimos uma vontade genuína, talvez uma necessidade, de fazer. A segunda percepção diz respeito a atividades que fazemos bem. É o que permite transformar uma aptidão num ganha-pão. A terceira é sobre aquilo que, além de fazer porque gosto, faço bem, e a sociedade está disposta a me remunerar para que eu faça. Me usando como exemplo, posso dizer que descobri muito cedo, para minha felicidade, que duas das coisas de que mais gosto de fazer na vida são ler e escrever. Num segundo momento, ao cursar uma faculdade de jornalismo e começar a escrever profissionalmente, me dei conta de que fazia isso com razoável proficiência. Quando descobre que sabe fazer bem alguma coisa que gosta de fazer, você tem um estímulo. Mais adiante, o desafio é testar seus limites: você consegue viver dessa atividade? As pessoas estão dispostas a te pagar por isso?

Quando consegue juntar essas três perspectivas, você tem uma pista da direção para a qual pode caminhar. Bem melhor do que o romântico "siga o seu coração". Para ficar no meu exemplo, gosto muito de música. Se fosse verdade que basta seguir seu coração e você vai realizar seu sonho, eu estaria até hoje tentando ser músico. Só que eu sou infernalmente ruim como guitarrista ou cantor. Então, esse caminho não funcionaria para mim. Eu não conseguiria transformar uma atividade de que gosto no propósito da minha vida. Entendo que por trás de um propósito há uma dose grande de emoção, uma busca por um sonho, como as pessoas gostam de dizer, mas é preciso ter uma dose de pragmatismo.

A questão do propósito

A procura de significado para a atividade produtiva é, sim, uma bandeira da chamada Geração Y ou dos millennials se você preferir em inglês. Não tenho dúvida de que esta é uma causa importante para uma juventude que gosta de se identificar com a questão do propósito, mas entendo também que esta é uma bandeira de um pedaço privilegiado da Geração Y. Em geral de gente bem-nascida, bem-criada, bem-formada, com um leque de alternativas bem interessantes para decidir o que quer fazer da vida. Seja a chance de escolher com cuidado o emprego que vai aceitar ou de optar pela via do empreendedorismo.

As pessoas que têm tais opções carregam, sim, essa bandeira. Mas se você for olhar aqui no Brasil para a Geração Y como um todo, vai ver que muita gente está em busca de atender necessidades primárias, que vêm antes do propósito. Vejo jovens que estão na batalha por um emprego que lhes dê um mínimo de conforto, de segurança, a chance de morar num lugar bacana, de poder pagar um plano de saúde. Gente pensando em constituir família, que precisa ter essa segurança financeira e talvez não coloque agora essa questão do propósito no primeiro plano. E, cá entre nós, eu nem acho que deveria.

Não gosto da mistificação em torno da ideia de que a Geração Y tem um chip mental diferente e já “sai de fábrica” com essa preocupação social, enquanto minha geração, a X, ou a que veio antes, a dos Baby Boomers, seriam mais individualistas.

Razões mais profundas para o trabalho

Tenho um certo medo dessas definições sintéticas para conceitos difíceis. Meu primeiro livro chama Felicidade S.A., até hoje as pessoas me pedem para dizer o que é felicidade, e eu não sei como responder em poucas palavras. Recentemente, uma colega jornalista me pediu, numa entrevista, uma definição para propósito. Fui forçado a elaborar um pouco sobre o tema.

Gosto de pensar que propósito é a razão principal pela qual uma pessoa física ou jurídica faz o que faz. Essa discussão em torno de propósito tem a ver com a busca por um significado maior para o trabalho que a gente faz e para os negócios que as empresas fazem, que vá além da recompensa financeira. Se você pegar alguém que nunca refletiu sobre propósito e perguntar para essa pessoa por que ela faz o trabalho que faz, é muito provável que, se a resposta for honesta, você ouvirá algo assim: "faço meu trabalho porque preciso do salário no final do mês". Se você perguntar isso para um empresário, talvez ele diga: "vendo meus produtos e meus serviços em busca de retorno financeiro, do lucro que vou ter no final do processo".

Quando a gente traz a questão do propósito para essa discussão, a intenção, basicamente, é ampliar o campo de visão da lente através da qual se olha o trabalho ou os negócios e tentar entender quais são as razões mais profundas para a nossa atividade profissional. A motivação extrínseca clássica é o dinheiro, uma recompensa que você recebe ao final de um período trabalhado. Já a motivação intrínseca, que é (ou deveria ser) o nosso propósito, é alguma coisa que está dentro de nós. Ela fica evidente quando se pensa em alguma coisa que possivelmente faríamos ainda que não fôssemos remunerados para tanto.

"Somos uma geração de bobos que se acha esperta"

O que diabos aconteceu com a Geração Y? Quem pergunta (e oferece algumas pistas) é Ícaro de Carvalho, editor de "O Novo Mercado",em um post publicado na plataforma Medium. Desde a legenda na foto de um escritório, digamos, moderninho que abre o post, o tom é de deboche indignado: "Hora extra? Nem pensar. WhatsApp depois do trabalho? Com certeza, afinal de contas, você ainda não tem filhos! Ah, mas te daremos Kit Kat e café expresso de graça." Trata-se, afirma ícaro, de um texto sobre liberdade, responsabilidades e as misérias de uma geração que está se perdendo no meio do caminho.

"Somos uma geração de bobos que se acha esperta", escreve ele. Bobos, argumenta Ícaro, por achar divertido virar a noite trabalhando, sem hora-extra, em troca de pizza e da liberdade de usar boné no escritório. Bobos por não desligar nunca do chefe ou do cliente. "Quando nossos pais estavam em casa, eles estavam mesmo", nota ele. "Qual foi a última vez que você esteve realmente desconectado do seu trabalho?"

Ícaro ataca o "mito do home-office libertador", muitas vezes transformado em jornadas intermináveis no (des)conforto do lar. "Quanto é que você está ganhando?", questiona. Ele ataca também o "tudo bem, porque eu amo o que faço", cujo resultado seria a criação do que ele chama, um tanto melodramaticamente, de "uma nação de escravos".

Seu ponto é que, em troca de relações de trabalho flexíveis e, muitas vezes, do relativo glamour de uma startup ou de uma agência de publicidade, o jovem da Geração Y estaria aceitando um volume de trabalho desproporcional ao retorno financeiro - e, ainda assim, se achando mais esperto do que o pai supostamente careta. Só que "na sua idade, ele já tinha casa própria e carro na garagem. E você? Figuras de ação do Mega-man", pondera Ícaro. Daí a história de ter se perdido no caminho.

"Em algum ponto entre o final da faculdade e o começo da vida adulta, nós perdemos a mão", afirma Ícaro. "Não estamos estabelecendo relações saudáveis de empregador e empregado, mas um misto de coleguismo com parceria e com prováveis projetos que poderão mudar o mundo, mas que não ajudam a pagar o aluguel."

Em defesa da timidez

Ser tímido é um trunfo. Essa característica pessoal permite o tipo de pensamento inventivo e a criatividade que escapa aos extrovertidos. Esta é a conclusão a que chegou a revista The Atlantic na resenha de um livro do historiador cultural Joe Moran chamado "Shrinking Violets", apresentado como uma defesa (silenciosa) da timidez. "Essa emoção única que engloba tantas coisas diferentes - embaraço, medo de rejeição, relutância em ser inconveniente - é, apesar de extremamente comum, extremamente misteriosa", nota a revista. Ou, como é dito mais adiante, "um monstro sem consideração". 

Mas a timidez também pode ser, segundo Moran, um grande dom. Seu impulso à introspecção permite que o pensamento inventivo e o gênio criativo possam florescer de um modo que parece escapar aos mais inclinados à conversa. 

"A timidez - no seu núcleo, talvez um desconfortável reconhecimento da grande distância que separa uma mente humana de outra - tem sido uma companheira para as pessoas e seus esforços", nota a resenhista, Megan Garber. Pessoas como o próprio Moran, que é britânico e afirma estar ciente de como é difícil ser um tímido em um mundo arrogante.

Em 1997, numa reunião de acadêmicos em Cardiff, no País de Gales, que se tornou a primeira conferência internacional sobre timidez, Philip Zimbardo, o emitente psicólogo, fez um alerta que era ao mesmo tempo provocativo e não surpreendente: a timidez estava se tornando uma epidemia. Sob influência da tecnologia digital - internet, e-mail, caixas eletrônicos - a "cola social" que ligara as gerações anteriores a redes de cooperação estava se dissolvendo.

Essa sensação de que a modernidade está nos isolando em bolhas, contudo, precede em muito a invenção dos computadores. Ormonde Maddock Dalton, arqueólogo e curador do Museu Britânico no início do século 20, acreditava que a timidez era um subproduto da civilização. Gente que se preocupava apenas com as necessidades mais básicas - alimento, abrigo e reprodução - não podia se dar ao luxo de desenvolver a autoconsciência necessária para ser tímido.