Regras que vale a pena conhecer

Gestão do tempo é uma competência importante do profissional contemporâneo. Por mais que as empresas possam (e acho que elas devem) criar ambientes mais saudáveis e estimulantes, com a flexibilidade necessária para as pessoas encontrarem a qualidade de vida que merecem, a busca por equilíbrio é pessoal e intransferível. Dentro do conceito de design de rotinas, que uso em meu livro Rotinas Criativas, há uma ideia que considero importante: tentar viver uma vida mais produtiva e mais criativa no âmbito do trabalho e, ao mesmo tempo, mais saudável, com mais propósito e, de preferência, mais divertida.

Como? Fazendo bem feito e rápido o que você precisa fazer para que sobre tempo também para o que você deseja fazer.

Pense, por exemplo, em gestão de e-mails. É uma das atividades que mais tomam tempo do profissional contemporâneo. Em média, no mundo, 28% do tempo de trabalho de um trabalhador do conhecimento é gasto lendo e respondendo e-mails. Ou seja, mais de um quarto de tudo o que se faz no trabalho tem a ver com e-mail. O que muita gente está fazendo hoje é trocar e-mail por outra plataforma. Tipicamente, o WhatsApp. Há empresas reduzindo o uso do e-mail e dando prioridade a serviços de mensagens instantâneas. Só que se continua alocando tempo para esse tipo de comunicação. Muda só a plataforma.

A ameaça do burnout

Conhece a expressão burnout? É uma forma de estresse tão profunda que acaba tendo um impacto sobre a saúde e sobre a qualidade de vida do trabalhador ou da trabalhadora. É um estresse fisicamente debilitante, que incapacita muita gente para o trabalho. O burnout tem uma série de razões, mas, em geral, está relacionado a duas variáveis. Uma é um nível de pressão muito alto no ambiente de trabalho. É um problema verificado no mundo todo. No livro Rotinas Criativas, selecionei vários estudos, de diferentes países, tanto desenvolvidos como em desenvolvimento: Estados Unidos, China, Alemanha. No Brasil, é claro, também há indícios de uma epidemia de burnout. Uma organização chamada ISMA (International Stress Management Association) estima que três de cada dez brasileiros economicamente ativos já teriam desenvolvido um quadro de burnout.

O problema é que a gente frequentemente não percebe quando cruza uma linha, em princípio invisível, entre um nível de estresse administrável, até certo ponto saudável, e o estresse fisicamente debilitante. Quando os primeiros sintomas físicos aparecem, é como se um fusível tivesse queimado em algum ponto do seu corpo. Trabalhar demais, não ter tempo para mais nada, é uma sobrecarga em nosso sistema físico que, não raro, provoca esse tipo de curto-circuito, silencioso e ameaçador.

O perfil clássico de workaholic - aquele que diz, com certo orgulho, que só se interessa pelo trabalho e não tem vida fora do escritório - está se tornando negativo na visão de empresários e de conselhos de administração que contratam, por exemplo, presidentes e diretores de empresas. Esta não é uma constatação minha, mas de headhunters, de pessoas que recrutam os executivos para preencher posições importantes nas companhias. É uma mudança de perspectiva sutil, mas fundamental.

Repensar o conceito de "expediente"

Uma série de estudos recentes oferece comprovação científica para a tese de que há um pico de criatividade e de capacidade de concentração no período da manhã, para a maioria das pessoas. Esta conclusão costuma ser vista de modo precipitado e equivocado: acreditar que deveríamos todos começar a trabalhar bem cedo, para aproveitar tal condição. Essa interpretação desconsidera que uma parcela importante da população tem o que os estudiosos do sono chamam de "cronótipo notívago".

Cronótipo é como o biótipo do sono, o nosso estilo pessoal em relação ao sono. E notívago é, como o nome sugere, um ser humano que tem uma tendência natural a ir dormir mais tarde e a acordar mais tarde - o que não significa, necessariamente, ser baladeiro, boêmio ou vagabundo. Se as pessoas que têm o tal cronótipo notívago são forçadas ou escolhem acordar cedo sistematicamente, acabam tendo o que os especialistas em sono chamam de "jet lag social" - o que equivale a ter no seu dia a dia aquela experiência que a gente tem quando viaja para um lugar distante, num fuso horário diferente: sonolência, baixa capacidade de concentração, irritabilidade, etc. Isso torna essas pessoas menos produtivas e criativas do que poderiam ser.

Entendo que, com exceção de algumas áreas específicas, as empresas deveriam estar atentas a esta questão e dispostas até a repensar o conceito de "expediente", com a tradicional fixação de horários para o início e para o fim do trabalho cotidiano.

Ajustes triviais

A redução da carga de trabalho é uma escolha que passa, muitas vezes, por uma diminuição da qualidade financeira da vida. É uma decisão que, com frequência, as pessoas acabam tendo de tomar. Não é fácil, principalmente se você é funcionário de uma empresa, dizer "eu vou trabalhar menos horas por dia". Esta não costuma ser uma decisão unilateral.

Há um tema que venho explorando desde meu primeiro livro, Felicidade S.A., que é a relação entre dinheiro e felicidade; dinheiro e sucesso. Abrir mão de dinheiro é uma decisão complicada, que não gosto de romantizar. Não é fácil fazer esse tipo de escolha. Idealmente, deveríamos tentar encontrar um ponto de equilíbrio, entre dinheiro e qualidade de vida. Ninguém precisa fazer voto de pobreza.

Também faço a ressalva de que esta é uma discussão que nem sempre é justa com quem não tem uma vida financeiramente confortável. Tudo depende de com quem estamos falando. Se estamos abordando o mundo dos empreendedores por opção ou dos gestores de empresas, acho que esta discussão é muito pertinente: até que ponto você está disposto a sacrificar a sua qualidade de vida, ou os seus valores, em nome da sua remuneração? Agora, quando se fala com gente que não tem muita opção para escolher o seu trabalho, talvez não se deva ter a arrogância de cobrar equilíbrio e propósito.

Repensar seu modo de vida

Uma parcela dos empreendedores brasileiros - ainda minoritária, relativamente pequena - está dando uma importância maior para a qualidade de vida. É gente produtiva e realizadora, mas que não quer sacrificar todos os outros aspectos da sua vida em nome do trabalho e dos resultados. Esta era uma atitude rara, quase folclórica, no meio empresarial. Os empreendedores, digamos, mais arrojados ironizavam quem tinha esta visão mais saudável da vida. É, na verdade, uma desavença antiga.

Os empreendedores costumam se dividir em dois tipos. Há os clássicos empreendedores de alto impacto - uma terminologia que a Endeavor popularizou no Brasil - e os empreendedores "life style". Este último, claro, é aquele preocupado com seu estilo de vida, com sua qualidade de vida. Os empreendedores de alto impacto, majoritários, tendiam a olhar com desprezo para os empreendedores "life style", que supostamente não estão dispostos a "dar o sangue" para fazer suas empresas crescer.

Noto um início de mudança nessa mentalidade. Essa turma mais preocupada com qualidade de vida começa a ganhar uma relevância maior nos círculos empreendedores. Ela faz parte do que batizei em meu livro novo, Rotinas Criativas, de Geração Pós-Workaholic. O que proponho não é um corte por faixa etária, como Geração X e Geração Y. Há pessoas que identifico como sendo pós-workaholic que têm, inclusive, um passado workaholic. Gente que já teve momentos de abandonar todos os seus outros interesses e se concentrar só no trabalho. Não é muito raro encontrar profissionais que, em algum momento da vida, tiveram um problema sério de saúde e resolveram repensar seu modo de vida.