Um "não fazer nada" criativo

Arthur Bezerra, presidente da escola de idiomas Berlitz no Brasil e personagem de Rotinas Criativas, gosta de motos e reserva os finais de semana para acelerar por estradas em torno de São Paulo. Não é competição, não há metas a bater nem interesse em fazer networking. É só prazer, descanso e relaxamento. Parece trivial, mas às vezes percebo que as pessoas colocam tanta coisa na agenda do fim de semana que não sobra tempo para, simplesmente, não fazer nada.

Não fazer nada é relaxante, às vezes é até bem interessante. Mas quando falamos em não fazer nada, para muita gente isso pode significar, por exemplo, assistir televisão. Você pode dizer: "Em oposição a ter o fim de semana cheio de atividades agendadas, não vou fazer nada". Para a maioria esmagadora dos brasileiros isso significaria passar sábado e domingo inteiros assistindo televisão. Uma pesquisa de 2015 diz que o brasileiro assiste, em média, a SEIS horas de TV por dia. SEIS HORAS de televisão por dia. Imagine uma pessoa que trabalha oito horas diárias (a jornada usual no país) e passa uma hora no trânsito (para o brasileiro médio, é pouco) para ir e voltar do escritório. Isso, basicamente, significa que essa pessoa acorda, vai trabalhar, quando volta para casa liga a televisão e assiste o que quer que esteja passando até desmaiar de sono.

O brasileiro está perto do topo do ranking de sedentarismo no mundo. O país tem 51% das mulheres e 47% dos homens sedentários, ou seja, fazendo pouquíssima ou nenhuma atividade física. Com frequência, quando se pergunta a essas pessoas porque não fazem nenhuma atividade física, a resposta é "porque não tenho tempo". É aí que, para mim, a conta não fecha. Temos seis horas de televisão por dia e, ao mesmo tempo, um sedentarismo epidêmico justificado pela falta de tempo.

Saindo do modo zumbi

Quais as condições para uma vida criativa? Uma providência importante é sair do piloto automático. Muita gente vive no que chamo de modo zumbi. Vai vivendo os dias sem parar muito para refletir sobre como está a vida, como está o trabalho. Para piorar, vivemos, profissionalmente, perto da exaustão. Ora, para ser criativo, é preciso estar com a cabeça funcionando bem.

Se você estiver saudável, tem uma condição importante para ter criatividade. Digo isso em oposição a quadros crônicos de estresse, que dificultam o trabalho, em geral, e a criatividade, em particular. Em parte por isso, a maioria das pessoas criativas que entrevistei para o livro Rotinas Criativas destaca a importância da atividade física como geradora de bem-estar e mesmo dos próprios insights criativos. É um fenômeno explicável porque, em geral, a prática esportiva é um momento em que você relaxa a mente, e quando isso acontece muitas vezes surgem ideias que não se está esperando. É aquela situação típica em que você está tentando resolver um problema, concentrado no desafio e não consegue uma solução. De repente, quando sai para correr, por exemplo, uma ideia inesperada vem à mente. Não por acaso, meditação é uma outra ferramenta que cada vez mais vejo as pessoas que fazem trabalhos criativos usando, justamente para esvaziar um pouco a mente, metaforicamente.

Quando você tem a mente muito entulhada de pensamentos, principalmente daqueles pensamentos repetitivos, daquelas conversas que você tem consigo mesmo, é difícil ser criativo. É preciso abrir espaço para pensamentos originais. Ter a mente atenta e aberta para o novo. De novo, vejo isso em oposição a isso que chamei de piloto automático ou de modo zumbi.

Um propósito de vida e de carreira

Criar produtos tecnológicos, com engenharia e design superiores ao que parece possível num dado momento na história, é um propósito de vida e de carreira? Na Apple dos anos épicos de Steve Jobs, era. A rigor, sempre foi, seja nos esportes, nas grandes viagens de exploração ou, mais recentemente, no empreendedorismo. Ir além do que parece possível sempre foi o que hoje se convencionou chamar por aqui de sonho grande. Esse tipo de desafio encanta muita gente.

Se esse é o propósito de um profissional, e ele encontra uma empresa que lhe oferece esse tipo de desafio, provavelmente vai se sentir realizado trabalhando lá. Não vejo nenhuma contraindicação, para quem está buscando propósito, em trabalhar para uma companhia convencional, mesmo que ela não tenha uma causa mais nobre de um ponto de vista socioambiental.

As empresas, no fundo, não trazem propósito para as pessoas. Buscar um propósito de vida, ou um propósito para a vida profissional, é um desafio nosso. Um desafio de cada profissional. Mais ou menos como um convite: pessoal e intransferível.

Nem todo mundo tem tino empreendedor

Uma parcela cada vez maior dos trabalhadores contemporâneos está procurando caminhos alternativos para buscar realização profissional. O empreendedorismo é o caminho alternativo mais conhecido. Muita gente compartilha o sonho de ter o próprio negócio. Empreender hoje é uma opção muito bem-vista, em voga, considerada bacana. Só que não é para todo mundo. Há muita gente competente como funcionária de uma empresa que não necessariamente se daria bem no empreendedorismo.

Nem todo mundo tem tino empreendedor, a competência para ser empresário. Ou a paciência necessária para ser dono do próprio negócio. Boa parte do tempo de um empreendedor é gasta fazendo coisas que as pessoas muitas vezes não gostam de fazer. Trabalho burocrático, serviços bancários, lidar com o lado chato da tecnologia, porque não tem um suporte para chamar quando dá pau no seu computador. Muitas vezes as pessoas não visualizam a quantidade de problemas que terão.

O que me parece interessante é que hoje nem todo mundo usa o mesmo caminho para buscar a sua satisfação profissional. Gosto de pensar que, sim, buscar um caminho alternativo é legal, mas não vejo porque tenha de ser o do empreendedorismo.

A planta da vida que você está construindo

Pesquisas recentes convergem para a conclusão de que a maioria das pessoas tem um pico de criatividade nas primeiras horas do dia. Trato disso em Rotinas Criativas, mas deixando claro que não se trata de um privilégio dos madrugadores. Você tende a ser mais criativo no início do SEU dia. Pouco importa se o SEU dia começa às seis horas da matina ou às dez da manhã.

Em um post publicado no site Thrive Global, o psicólogo organizacional Benjamin Hardy leva o assunto adiante. "Pesquisas confirmam que o cérebro, especialmente o córtex pré-frontal, é mais ativo e prontamente criativo imediatamente depois do sono", diz. A mente subconsciente vaga sem ser perturbada enquanto dormimos, fazendo conexões contextuais e temporais.

Em uma entrevista recente com Tim Ferris, Josh Waitzkin, um ex-prodígio do xadrez e campeão mundial de tai chi, explica sua rotina matinal para explorar os avanços subconscientes e as conexões experimentadas enquanto ele estava dormindo.

Ao contrário de 80% das pessoas com idades entre 18 e 44 anos, que checam os seus smartphones nos primeiros 15 minutos depois de acordar, Waitzkin vai para um lugar calmo, faz alguma meditação e pega seu diário para descarregar pensamentos.

Para Hardy, esta é a primeira coisa a fazer de manhã, quando "seu cérebro criativo está mais sintonizado": escrever tudo que vem à mente. "Muitas vezes, tenho ideias para artigos que vou escrever enquanto faço esses exercícios", afirma ele. "A criação mental sempre precede a criação física. Antes de um edifício ser fisicamente construído, há uma planta. Os pensamentos são a planta da vida que você está construindo um dia de cada vez."