Bem-estar e produtividade

Por que bem-estar tem tudo a ver com produtividade? Wanda Krause, consultora e professora de liderança, responde em um artigo para o Thrive Global de Arianna Huffington. Curiosamente ela começa por um ponto que abordo em Rotinas Criativas. "Os países com desempenho mais alto [em produtividade] têm os dias de trabalho mais curtos", escreve Wanda. Sete países no topo do ranking dos maiores PIBs do mundo estão entre aqueles que têm as menores jornadas de trabalho: Luxemburgo, Noruega, Suíça, Holanda, Alemanha, Dinamarca e Suécia. "Ainda vivemos em uma cultura de vangloriar-se sobre quão duro trabalhamos e quão pouco dormimos para trabalhar", nota ela. Mas trabalho em excesso está correlacionado a desempenho inferior, enquanto bem-estar tem tudo a ver com produtividade.

Sono, também para Wanda, é um ponto importante. "Existem inúmeros estudos que mostram o impacto do sono adequado durante um período de tempo no desempenho físico", nota ela. O mesmo vale para desempenho mental, como explica o CEO da Amazon, Jeff Bezzos: "Acertar um pequeno número de decisões-chave é mais importante do que tomar um grande número de decisões. Se você encurtar o seu sono, pode obter um par de horas extras 'produtivas', mas essa produtividade pode ser uma ilusão. Quando você está falando sobre decisões e interações, qualidade é geralmente mais importante que quantidade".

Outros componentes do bem-estar vão de propósito a exercícios físicos. "E há uma dimensão crítica para a produtividade - a criatividade", escreve Wanda. Ninguém é criativo por trabalhar muitas horas. Em vez disso, é preciso abrir espaços para que o cérebro possa vagar e para que a pessoa possa refletir. Benjamin Hardy, um psicólogo organizacional que também escreve no Thrive, nota: "O que você faz fora do trabalho é tão importante para a sua produtividade quanto o que você faz no trabalho".

Então, pergunta Wanda, como garantir que a abordagem centrada no bem-estar esteja alinhada com metas de desempenho no trabalho? "Uma forma-chave é criar uma compreensão compartilhada dos benefícios do bem-estar, não só para a própria vida, mas para o aprimoramento daqueles com quem você compartilha a vida, sua equipe e o bem de toda a organização.                                                                            

Uma nova esfera de qualidade de vida

Durante boa parte da nossa história, o ato de trabalhar era, basicamente, visto como um sacrifício que fazíamos em troca de uma recompensa material. Na Grécia antiga, homens livres não trabalhavam. Quem trabalhava era escravo. Depois, no mundo católico romano, o trabalho ainda é visto como inevitável sofrimento - "o suor do teu rosto". As pessoas estavam condenadas a "trabalhar para ganhar o pão". É só na era pós-moderna que entra em cena a crença de que você pode (e de que você tem direito a) buscar a felicidade no ambiente de trabalho. Esta é uma ideia relativamente nova. Em termos históricos, é bastante recente. Trazer as nossas buscas por felicidade para o âmbito do trabalho é uma inovação do final do século 20. Até então, a labuta era, na melhor das hipóteses, apenas um meio para se "comprar felicidade".

O caminho tradicional para ser feliz quase sempre foi colocar-se a serviço e ser obediente ao seu deus. Estar em contato com o divino. Essa é uma crença que perde força na pós-modernidade. Uma outra esfera para a busca de satisfação durante muito tempo foi a política. Lutar por conquistas políticas ou promover uma revolução eram desafios que traziam sentido para a vida de muita gente. Sobretudo no século 20, as ideologias políticas tomaram o lugar das religiões no mainstream social como o espaço primordial para a busca de significado existencial. O mundo, porém, se tornou menos politizado no que hoje parece ter sido a era dourada das democracias liberais, que compreende as três últimas décadas do século 20 e a primeira do 21. É verdade que hoje a política voltou a dominar (e dividir) corações e mentes no mundo todo, mas o trabalho ainda parece ser o meio preferencial para a busca de felicidade e propósito pela maioria dos seres humanos. Fiz um pouco desta reflexão histórica em Felicidade S.A., meu primeiro livro. No meu trabalho mais recente, chamado Rotinas Criativas, que lancei em abril, trato da questão da pós-modernidade. Da vinda do trabalho para o centro da nossa busca por satisfação e realização pessoal.

Três perguntas para medir sua (in)satisfação profissional

Meu trabalho é criativo? Esta é outra das perguntas que podemos nos fazer de vez em quanto para medir nosso nível de (in)satisfação profissional. Penso que devemos olhar para esta questão de duas maneiras. Uma diz respeito à natureza do trabalho que fazemos. Em geral, as pessoas mais motivadas e felizes profissionalmente são aquelas que sentem que têm no trabalho um ambiente propício para criar. Quem busca esse espaço de criatividade, deveria constantemente estar atrás de oportunidades para exercitar seu lado inventivo. Outra maneira de encarar esta mesma pergunta é refletir sobre se exercemos a nossa função profissional, qualquer que seja ela, de uma forma criativa. Ou seja, se questionamos o que é convencional. Se rejeitamos aquela resposta detestável: "fazemos assim porque sempre fizemos assim". Aceitar esta resposta é abrir mão de qualquer possibilidade de ser criativo, de eventualmente mudar um processo dentro da empresa em que você trabalha.

Meu trabalho tem impacto sobre a vida de outras pessoas? Esta é uma pergunta que traz para a discussão o componente do propósito. Pode ser em um nível mais idealista: Será que a organização onde estou hoje tem impacto positivo na sociedade? Pelo tipo de produto ou serviço que oferecemos? Ou em um nível pragmático: Meu trabalho, no sentido da minha atitude em seu exercício, tem impacto positivo sobre as pessoas com quem eu me relaciono? Dentro do escritório, sou uma pessoa do tipo que cria um ambiente bom, que ajuda as pessoas a florescerem lá dentro? Ou sou o tipo de pessoa que atrapalha a vida dos outros? Como é meu contato com meus colegas? Com meus chefes? Com meus subordinados? Com meus clientes? Afinal, dentro de qualquer ambiente de trabalho tem gente que ajuda e tem gente que atrapalha.

Para quem está numa fase de ascensão profissional, talvez seja útil olhar um pouco para os líderes ou gestores e aí fazer uma pergunta: o meu chefe é uma pessoa inspiradora? Trabalhar com gente inspiradora é um privilégio que poucos de nós temos ao longa da vida. Às vezes essas pessoas inspiradoras são pessoas difíceis também - e às vezes a gente só percebe que deixou de trabalhar com alguém inspirador quando vai trabalhar com um chefe medíocre. Portanto, se você é liderado por alguém que o inspira, ainda que esse alguém não seja a pessoa mais fácil do mundo, dê um jeito de aproveitar a experiência.

Há motivação sem propósito?

É difícil imaginar uma situação na qual você tem um propósito para sua carreira e para o seu trabalho, mas está desmotivada. Pode até acontecer, se você não consegue exercitar esse propósito, mas, em princípio, se você consegue encontrar e atender a um chamado, provavelmente estará motivada. Isto não quer dizer, porém, que sem propósito não é possível ter motivação.

Todos nós passamos por várias etapas ao longo de nosso desenvolvimento profissional e em cada uma dessas fases temos um motivador principal. Raramente temos uma só fonte de motivação. Em geral, temos uma cesta de fatores motivacionais e, em cada fase de nossa carreira, tendemos a ter uma motivação principal. É o que chamo de recompensas sociais para o trabalho.

Quando você começa a trabalhar, na primeira fase da sua carreira, qual é o seu grande motivador? É aprendizado. Se estamos aprendendo enquanto trabalhamos, provavelmente estaremos motivados, ainda que nem tenhamos começado a pensar nessa história de propósito. Numa segunda etapa da carreira, quando já nos tornamos profissionais, em geral nos focamos em uma recompensa social chamada dinheiro. Em uma terceira fase de nossa vida profissional, talvez a nossa principal motivação seja o poder - com a ressalva de que poder não é, necessariamente, algo que se deva ver no sentido maquiavélico do termo, que implica dominação. Poder pode ser liderar uma equipe e potencializar o impacto do seu trabalho no dia a dia de sua empresa.

Ida e volta para o trabalho

“Não pego mais trânsito. Só ando de scooter”, me disse Flávia Bittencourt, a presidente da Sephora no Brasil, no depoimento que me deu para o livro Rotinas Criativas. De casa até o trabalho, e vice-versa, Flávia gasta hoje apenas 15 minutos. De carro, gastaria fácil uma hora em cada um desses deslocamentos.

Hoje em dia, querer ter um carro e dirigi-lo no dia a dia é uma decisão que deveria ser repensada. Claro que casais com filhos em geral têm rotinas que são super atribuladas, com muitas atividades: levar as crianças à escola, ao médico, ao futebol, ao balé e assim por diante. Entendo, um pouco, a lógica de querer ter um carro para não ficar dependendo de chamar um táxi ou Uber para cada deslocamento. Quando saímos dessa questão específica, porém, começo a questionar por que as pessoas optam por dirigir de casa para o trabalho e do trabalho para casa.

Os níveis de hormônios do estresse são sempre muito elevados (ou mais elevados do que o normal) ao final das viagens de ida e volta para o trabalho, que os americanos chamam de commuting. E o interessante é que isso continua sendo assim, os níveis de hormônios do estresse continuam bem elevados, mesmo se essa pessoa fizer esse mesmo trajeto por muitos anos.

O tempo gasto no trânsito pelos trabalhadores vem aumentando em todas as regiões do Brasil. Por ano, o paulistano passa, em média, um mês e meio preso em congestionamentos. O tempo gasto no trânsito ultrapassa duas horas para 23% dos 12 milhões de habitantes de São Paulo. Ao menos 31% dos brasileiros gastam mais de uma hora por dia para se deslocar para o trabalho ou para a escola. Imagine a quantidade de atividades que se pode fazer nesse tempo. Muitas coisas boas, inclusive, como já disse no post anterior, não fazer nada. Descansar, dormir.