Procrastinação produtiva?

O conceito de procrastinação produtiva é um mito. Se ela aumenta sua criatividade, provavelmente não é procrastinação, para começo de conversa. Esta provocação sintetiza um artigo da série "Quartz at Work", publicado por Lila MacLella.

"A procrastinação pode ser o risco ocupacional mais antigo do mundo. Os estudiosos dizem que foi identificado pela primeira vez (...) em textos iranianos que definiram o zoroastrismo, uma religião mundial datada do segundo milênio AC", escreve ela.

"Ultimamente, o hábito ganhou força: um punhado de psicólogos sugerem que empurrar o trabalho com a barriga pode ser benéfico porque aumenta a criatividade." De acordo com Lila, porém, um estudioso de longa data do tema está disposto a acabar com a festa da "procrastinação produtiva". Tim Pychyl, professor de psicologia e diretor do Grupo de Pesquisa da Procrastinação da Universidade de Carleton, diz que a noção de procrastinação produtiva ou ativa é paradoxal e sem sentido.

Meta-análises de pesquisas têm mostrado que a procrastinação pode estar ligada a baixo autocontrole, desempenho fraco e menos sinais de bem estar." Tal conclusão bate de frente com a convicção confortável dos procrastinadores convictos.

Os pesquisadores que promovem a "procrastinação ativa" (quando a decisão de adiar o trabalho é deliberada e a pressão de um prazo mais apertado é usada como motivador) dizem que ela pode levar a um melhor desempenho e melhoria da saúde.

A desconexão entre seus pensamentos e o de Pychyl, segundo Lila, deve-se ao fato de que ele não chama tal comportamento de procrastinação - conceito que, para Pychyl, é definido por ter a intenção de fazer algo e depois não fazer, mesmo que você fique em pior situação pelo atraso. Isto não é só uma questão de semântica, explica Pychyl, mas uma questão de bem-estar.

Mohsen Haghbin, que trabalhou com Pychyl em Carleton como aluno de doutorado, identificou seis tipos de atraso:

* Atrasos inevitáveis, que surgem quando a agenda está sobrecarregada ou é interrompida por outra obrigação.

* Atrasos de excitação, que ocorrem quando uma pessoa decide que estaria mais motivada a fazer algo no último minuto.

* Atrasos hedonistas, que acontecem quando uma pessoa escolhe, por prazer, fazer algo diferente da tarefa em questão.

* Atrasos devidos a problemas psicológicos, tais como o luto ou outro estado de espírito ou condição de saúde mental.

* Atrasos propositais, comumente exigidos quando uma pessoa precisa, digamos, pensar sobre um trabalho criativo.

* Atrasos irracionais, que são inexplicáveis para o procrastinador e muitas vezes alimentados pelo medo do fracasso.

Na prática, essas categorias não são mutuamente excludentes, nem todos esses atrasos são uma forma de procrastinação.

Pychyl argumentaria que um atraso proposital não cabe neste conceito. Terminologia à parte, ele concorda com a turma da "procrastinação produtiva": os atrasos propositais podem levar a um aumento da criatividade. "Porém, a tática dos atrasos intencionais não é útil para todos", adverte Lila, com neuróticos e ansiosos em mente. "E mesmo um atraso proposital que não causa pânico ou medo não é garantia de que seu trabalho irá brilhar", pondera ela. Deixar tudo para a última hora pode, simplesmente, aumentar o risco de erros e piorar a qualidade da entrega.