Narciso, o patriarca empresário

Já escrevi sobre líderes psicopatas e vários outros tipos de chefes tóxicos ou simplesmente sem noção, mas não canso de me surpreender com a amplitude dos estragos que administradores com neuroses não tratadas são capazes de provocar. 

A mais recente aparece no livro Sucessão ou Morte da Empresa Familiar?, do consultor Nelson Cury Filho, que chega às livrarias no dia 16 de agosto. O drama aqui é o narcisismo de certos fundadores em empresas familiares.

Cury é especialista em negócios geridos por famílias e passou dois anos estudando esse perfil de empresário. Em parte, para compreender melhor porque, no Brasil, 70% das empresas familiares não chegam à segunda geração. Sucessão ou Morte  é uma ampliação de sua dissertação de mestrado no Insead, aprovada em 2016. Sustenta que o maior risco a ser enfrentado por uma empresa familiar durante um processo de transição é, possivelmente, a forma como pensa e age o seu fundador.

Membro, ele mesmo, de uma família empresária, mas dono do próprio negócio (a Cedar Tree Family Business Advisors), Cury faz uma diferenciação relevante entre o líder com a necessária autoestima alta e o fundador narcisista, que sofre de uma patologia psicológica. Este último é o típico patriarca egocêntrico, concentrado em atingir seus objetivos pessoais de poder, de status e de prestígio, a ponto de relegar os interesses da família (e da própria companhia) a um segundo plano.

O fundador com esse perfil tem dificuldades para construir e nutrir um relacionamento sadio com seus descendentes, o que põe em risco o próprio legado familiar. Conflitos em torno de uma personalidade desse tipo não raro tornam-se irreversíveis. 

Centrado em si mesmo, por definição, o narcisista acredita ser especial e tende a desenvolver pouca (ou nenhuma) empatia. Ou seja, tem dificuldade para se colocar no lugar do outro e, consequentemente, tendência a menosprezar interlocutores. Na vida empresarial, diz Cury, isso se traduz em fundadores que não conseguem dividir poder, delegar tarefas nem acreditar que exista alguém capaz de sucedê-los. Em muitos casos, relata ele, os patriarcas tendem a se comunicar de forma autoritária, o que impede que conhecimentos, experiências e percepções sobre o negócio sejam repassadas de forma construtiva. Há mesmo aqueles avessos à capacitação e educação de seus descendentes. É que Narciso acha feio o que não é espelho.